16h31, quinta-feira, 9 de setembro de 2010 - 1044623 visitas desde JUN.2008
06. TEXTOS
O excitante amor ao diferente
Jorge Forbes

Estudante de direito e filha de professora universitária ajuda  
namorado, office-boy procurado pela Justiça, a assaltar a própria  
mãe 
 
Jorge Forbes* - O Estado de S.Paulo – Cad. Aliás 
 
A filha, ao mesmo tempo que se despede da mãe que está indo  
para a missa, pedindo que lhe trouxesse um doce quando voltar,  
fala ao telefone com o namorado, passando as coordenadas dos  
movimentos da mãe, para que o assalto planejado pelo bando  
desse namorado seja feito com a melhor precisão. 
 
De uma só vez essa menina, de cara angelical e voz infantilizada,  
consegue romper dois dos principais tabus sociais: mãe e religião.  
Com mãe e Deus não se brinca, ditava a cartilha de qualquer  
meliante. Quando os "intocáveis" do laço social começam a  
desmoronar, com justa razão há um alerta geral, e essa pequena  
notícia veiculada nessa semana fica incomodando tal qual uma  
espinha, ao lado de tragédias bem mais retumbantes. 
 
A menina é loira, estudante de direito, filha de professora  
universitária e de procurador de Justiça. O menino é moreno,  
office-boy, procurado pela Justiça. Silêncio: cuidado com  
pensamentos politicamente incorretos sobre essa união. Que  
ninguém venha falar que o menino é o lobo mau dessa doce  
chapeuzinho. Nem a mãe nem o pai da menina nada devem ter  
dito, dada a convivência íntima por dois anos, em sua casa. Tem  
muito pai e mãe que não falam mais nada para seus filhos, hoje  
em dia, amordaçados pela patrulha do politicamente correto. Se  
disserem alguma coisa, estarão discriminando. Mas não haveria  
uma forma de se falar, sem ser condenado por sua opinião?  
Vejamos. 
 
Quando pessoas convivem por muito tempo, de duas, uma: ou  
elas têm muita coisa a repartir - interesses, valores culturais e  
éticos -, ou elas, sendo muito diferentes, tentam anular a  
diferença que as afasta, hipertrofiando os prazeres básicos  
sexuais e anulando qualquer outro sistema de laço social que as  
distancie. Logo, o desastre não é decorrente do fato de um ser  
supostamente melhor que o outro, mas de que, quanto mais  
distantes forem, mais primária, no sentido de menos elaborada,  
será a relação, necessariamente. O duro, a se acrescentar, é que  
o amor entre os diferentes é muitas vezes mais excitante do que a  
modorrice dos semelhantes. Será que os pais poderiam explicar  
isso a seus filhos e, especialmente, a si próprios? E mais, nem  
sempre o que é explicado tem que ser entendido. Pais não devem  
temer o mal-entendido; não há um bom pai, ou boa mãe - seja o  
que for que entendamos por isso - que já não tenha ouvido "eu  
não gosto de você" de um filho. Logo, pais, não recuem quando  
não concordarem, quando não aceitarem. 
 
Nessa sociedade que perdeu os parâmetros há que se tomar  
cuidado em se pensar que finalmente somos todos iguais. Não, ao  
contrário, o que fica evidente é que somos todos diferentes, o que  
exige muito mais responsabilidade em qualquer relação. Se não  
for assim, estão abertas as portas à esculhambação generalizada:  
ao estupro de menores, ao furto de velhinhas, ao roubo de mães. 
 
Não houve quem não associasse esse incidente carioca com o  
assassinato de um casal em São Paulo, com a participação da filha  
igualmente estudante de direito. (Nada de conclusões precipitadas  
sobre as estudantes de direito...) Será que a família vai  
desaparecer, como pensam alguns? Será que a família é uma  
relação como outra qualquer? Contrariando o bom-senso, que  
sempre pensa mal, a tendência da globalização é de sublinhar um  
novo valor da família, que não é desmentido pelo grande aumento  
dos divórcios, se entendermos a lógica. A família será o centro da  
responsabilidade ética - disse ética, e não moral - da sociedade.  
Família, grosso modo, é do que nos queixamos com mais  
veemência e paixão. É o grupo do qual mais se espera o  
reconhecimento que nunca chega e a compreensão impossível de  
sua dor. É na insatisfação da família que cada um lapida o que lhe  
falta, a saber, o seu desejo, pois não há desejo sem falta. 
 
Luc Ferry, em livro recente, Famílias, Amo Vocês - Política e Vida  
Privada na Era da Globalização, defende a ideia de que depois da  
era na qual os humanos se guiavam pela transcendência divina,  
substituída pela transcendência da razão no Iluminismo, alcança- 
se, na globalização, a "transcendência da imanência". Vale uma  
explicação: ao contrário do que se pode imaginar, os tempos  
atuais de forte individualismo não caminham para o isolacionismo,  
mas para a rede social. E é na rede social, no confronto com o  
parceiro, que cada pessoa tem a ocasião de perceber o que Freud  
chamou de "o estranho", "Das Unheimlich". Quando nos  
encontramos com alguém, mais claro fica que alguma coisa de  
mim falta ao encontro, exatamente essa coisa estranha, essa  
transcendência da imanência, essa falha na minha intimidade,  
esse "êxtimo", como o nomeou Lacan. Pois bem, depois do divino  
e da razão, é essa intimidade estranha que servirá de guia ético  
para o novo tempo. Sua estranheza exigirá de cada um duas  
coisas: invenção e responsabilidade. Inventar um sentido para o  
que não tem, para o estranho, e se responsabilizar pela sua  
publicação no mundo. 
 
Se ontem as famílias estavam a serviço da República, mandando  
seus filhos para a guerra, por exemplo, hoje, a República deverá  
servir às famílias. É o remédio contra o que nos repugna: uma  
filha ficar de campana para a mãe ser assaltada.  
 
 
 
*Psicanalista, preside o Instituto da Psicanálise Lacaniana - Ipla e  
dirige a Clínica de Psicanálise do Centro do Genoma Humano -  
USP  
 




  









 

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