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09. EVENTOS
A DIRETORIA DA EBP-SP CONVERSOU -14/11/09


Em 14 de novembro de 2009, a Diretoria de Intercâmbio e Cartéis convidou para a Conversação: Atreve-te a saber e a Diretoria de Biblioteca para a Exibição e debate sobre o filme "Zazie no metrô". 
  
  
 
Resenha: Atreve- te a saber 

O título da atividade organizada pela Diretoria de Intercâmbio e Cartéis da EBP-SP, em 14 de novembro de 2009, Atreve-te a saber, foi inspirado no artigo de Maurício Tarrab No cartel se pode obter um camelo. Este texto, que foi objeto de discussão da atividade anterior, cita Jacques Lacan em O senhor A, de 1980, onde há a afirmação: juntar-se para fazer algo e depois separar-se. 
   
Tarrab salienta que para juntar-se é necessária uma nova relação entre o novo e o saber, posição alicerçada em duas afirmações: a primeira feita por Jacques-Alain Miller que evoca a fórmula que resume o Espírito das Luzes – sapere auda, atreve-te a saber, ousa saber, e para tal há o entrecruzamento do laço coletivo – já que necessário para o debate -, e uma posição subjetiva com respeito à ignorância. A segunda referência é da conferência de Leonardo Gorostiza na abertura da Jornada de Cartéis da EOL: “a relação de cada um ao saber é o produto de uma elaboração coletiva: tu podes saber, mas não sem os outros.”[i]  
 
Não sem os outros remete ao coletivo, ao grupo e, neste momento da atividade, reportamo-nos ao trabalho de Romildo do Rêgo Barros, Sobre Grupos - disponível no site do IV Encontro Americano -, onde o autor nos remete a Freud em Psicologia de grupo e análise do eu. Freud inicia o texto afirmando que não há diferença entre a psicologia individual e a psicologia social, o que permite “aplicar” a teoria psicanalítica aos grupos artificiais, sendo a Igreja e o Exercito os grupos paradigmáticos. Mas, qual o artifício que faz com que o grupo se mantenha unido? Exatamente a tensão existente entre o amor vertical ao chefe e o amor horizontal aos irmãos. Esta “montagem freudiana dos grupos exige uma consistência extraordinária da função do Um”.[ii]  
 
O texto de 1921, pós I Guerra Mundial, encontra, em certo sentido, “sua resposta” no artigo de Lacan A psiquiatria inglesa e a guerra, publicado em 1947. Texto escrito após Lacan visitar a Inglaterra e conhecer a experiência de grupo realizada no exercito britânico por Bion., - experiência publicada com o título “Tensões internas ao grupo na terapêutica. Seu estudo proposto como tarefa do grupo.” Na texto de Lacan encontramos: “(...) Nele reencontro a impressão de milagre dos primeiros avanços freudianos: encontrar no próprio impasse de uma situação a força viva da intervenção.”[iii]  
 
Em 1964, no Ato de fundação da Escola[iv], Lacan propõe que sua Escola tenha como célula de base o cartel e, como afirma Romildo, referindo-se ao texto de Éric Laurent Lo real y el grupo, “(...) O cartel é um pequeno grupo de trabalho, sem líder, voltado sobretudo para o estudo e elaboração de textos, mas igualmente para realização de pequenas tarefas que Lacan coloca na base da instituição criada por ele, a Escola. Se é verdade que os pequenos grupos de Bion são ancestrais do cartel lacaniano, pode-se dizer que a Escola de Lacan descende do cartel (...)”. Neste momento da conversação Cássia Guardado, ressaltou que o passe é também célula de sustentação da Escola e ligado ao Cartel, e que na Escola da Causa o cartel do passe figura entre os cartéis declarados à Escola. Vale relembrar que o cartel deve ser declarado à Escola e o produto do trabalho endereçado a sua comunidade.  
  
Não há líder no cartel, mas o Mais-Um, escolhido entre os cartelizandos que, por sua vez, se escolheram a partir de um tema. A escrita para o cartel é 4+1, que pode ser lido como quatro cartelizantes e um elemento que está fora, que descompleta o grupo e, como afirma Laurent, no texto Lo real y El grupo, cabe ao Mais-Um interpretar os impasses para que o trabalho seja possível. Não se trata da interpretação da posição subjetiva de cada cartelizante, mas dos impasses oriundos da própria experiência de trabalhar com uma questão particular, mas em um pequeno grupo. E aqui nos deparamos com o lógica do “atreve-te a saber”, mas não sem os outros. 
 
A conversação também abordou os cartéis expandidos ou fugazes. Blanca Musachi fez uma interessante intervenção fazendo coincidir o momento político com a experiência mesma do cartel: quando a psicanálise aplicada saiu da periferia e ocupou o centro de várias discussões, em um movimento de destensão o cartel ampliado se expandiu. No momento em que há certo fechamento da Escola e as lentes se voltam para a psicanálise pura, o cartel em sua estrutura fundamental volta ao centro.  
 
Outro aspecto foi discutido: as metáforas militares utilizadas por Lacan ao longo de seu ensino. Além do próprio texto A psiquiatria inglesa e a guerra, escrito pós II Guerra Mundial, há, na Fundação da Escola, a idéia de reconquista do campo freudiano. Em A direção do tratamento encontramos a política, a tática e a estratégia em uma cura, enfim, há outras referências trazidas por Blanca Musachi a partir de uma conferência de Jacques-Alain Miller na Espanha, e a idéia de que há algo de guerreiro aplicado - referência a livro homônimo -, na experiência do cartelizante.  
 
Então, um pouco como guerreiros aplicados, nos reunimos em um lindo sábado ensolarado para “conversar” sobre o cartel, encerrando com uma interessante pergunta de alguém que se aproxima da Escola: O lugar do Mais-Um foi delineado com contornos precisos - não é líder, não é mestre, descompleta o grupo, interpreta os impasses, mas qual o lugar do cartelizante? Fica então o convite para, que tanto aqueles que se aproximam como aqueles que já estão na Escola criada por Lacan, atreverem-se na experiência com o cartel, que é sempre única e transmissível a partir de seu produto. 
 
 
A próxima atividade da Diretoria de Intercâmbio e Cartéis da seção São Paulo será oportunamente divulgada. 
 
 
 
Valéria Ferranti Baptista

 
 
[i] TARRAB, Maurício. En las huellas del sintoma. Ed. Grama 
 
[ii] BARROS, Romildo do Rêgo. Sobre Grupos. IV Encontro Americano. 
 
[iii] LACAN, Jacques. A Psiquiatria Inglesa e a guerra. In Outros Escritos. Jorge Zahar Editor p. 113. RJ, 2003. 
 
[iiii] LACAN, Jacques. Ato de fundação da Escola. In Outros Escritos. Jorge Zahar Editor, RJ, 2003  
 
 
 
 
 
 
Resenha: Zazie no metrô  
 
 
 
A exibição do filme Zazie no metrô, seguida de debate com a presença de Paulo Werneck, tradutor da edição comemorativa dos 50 anos da publicação do livro de Raymond Queneau (1903-1976), marcou a presença da Seção São Paulo da Escola Brasileira de Psicanálise nas comemorações do Ano da França no Brasil. 
 
Zazie vai a Paris passar uns dias sob os cuidados do tio Gabriel, enquanto sua mãe passeia com o novo namorado. Em Paris, Zazie quer apenas andar de metrô, mas não consegue – está em greve. Ela não se conforma com isso e, ao invés do passeio subterrâneo pretendido, anda por Paris, uma Paris de 1950, pós-guerra, tagarelando com tudo e todos: um taxista, um sapateiro, um dono de bar, uma garçonete e um papagaio. 
 
O romance nos mostra as inovações linguisticas que Queneau promoveu na literatura, ao levar para o romance, por exemplo, o jeito de falar das ruas, com gírias e muitos palavrões, ao usar uma linguagem mais irreverente em um contexto literário.  
 
Louis Malle, produtor do filme (1960), utilizou recursos cinematográficos diversos – desenho animado, estilo pastelão, cinema mudo, cenas que lembram Chaplin com a câmera acelerada - para que a literatura fosse transportada para a tela.  
 
Werneck nos contou de suas alegrias e dificuldades na tradução, mostrando-se entusiasmado com o resultado de seu trabalho. Encantou-se desde jovem com o texto de Queneau e aproveitou a comemoração dos 50 anos da publicação do livro para propor a nova tradução de Zazie. A editora Cosac&Naify topou uma edição bastante esmerada. O projeto gráfico do livro é bastante peculiar, bonito e condizente com os subterrâneos que Zazie procura pela cidade. 
 
Ao ser perguntado sobre qual seria o prazer do tradutor, Werneck acentuou que “o tradutor convive com uma grande ambiguidade” – é um prazer enorme encontrar solução para uma expressão difícil e, por outro lado, ele está sempre sofrendo, tentando dar conta daquilo que está no original. 
 
É um livro sobre a linguagem, nos diz, repleto das armadilhas da linguagem, a começar pelo título: Zazie no metrô, sendo que ela nunca esteve no metrô. Queneau fala do mal-entendido, dos atos falhos, do subentendido, dos significados ocultos, das falhas da linguagem. Mostra que existe um discurso na superfície e um discurso subterrâneo, é “como se Zazie estivesse realmente nos subterrâneos da linguagem”, mostrando isso e revelando todos os personagens sempre às voltas com seus desejos. “Como uma espécie de Sócrates, Zazie sai andando pela cidade e, fazendo perguntas, vai extraindo as verdades daquelas pessoas, que mal desconfiam do que sai de suas bocas”. 
 
No artigo Zazie zanza em Paris e zoa a linguagem, de Gisela Anauate, publicado na Revista Época, em 10/06/2009, podemos ler que “quando foi lançado, em 1959, o livro de Queneau provocou reações opostas entre os críticos literários. Alguns o levaram extremamente a sério e fizeram estudos linguísticos sobre o vocabulário malcriado e os neologismos do texto. Outros consideraram a odisseia de Zazie como uma brincadeira boba de Queneau, que não merecia atenção. Roland Barthes, um dos maiores críticos da França, escreveu um texto esclarecedor que aparece como posfácio desta nova tradução de Zazie no metrô. Lá, diz que a finalidade do romance era simplesmente arruinar qualquer diálogo a seu respeito. 
 
Segundo Barthes, Queneau desmonta a literatura, reduz a ação às palavras e também as massacra, através de seus neologismos e invencionices. Faz transgressões das normas escritas, com uma imposição total da fala. Logo no início da narrativa temos um belo exemplo disso: “Dondekevemtantofedô, Gabriel se perguntou, irritado.”  
 
O livro tem, ao mesmo tempo, um discurso literário e filosófico, com diversas citações filosóficas, e também uma falação contínua, uma conversa de bar, um diálogo permanente. Queneau misturou sua grande erudição a um discurso popular e também fez piada com a erudição. A epígrafe do livro, que é de Aristóteles, é colocada em grego, em alfabeto grego, e ao fazer a citação erudita e não traduzi-la, Queneau tira um sarro daqueles eruditos que colocam algo que ninguém entende como se fosse uma erudição, diz Werneck. 
 
Linguagem, modos de dizer, falação sem parar, como mostra muito bem através do papagaio Laverdure, com seu bordão: “falar, falar, você só sabe fazer isso”, cutucar e cavoucar os subterrâneos do desejo, a quebra do universal para o particular, tudo isso tem a ver com a psicanálise e com o tema que vem sendo debatido pela AMP, na preparação de seu Congresso de 2010 em Paris: “Semblantes e Sintoma”. 
 
O que Zazie nos faz pensar? Ela mostra e mexe com os semblantes, com os símbolos da cultura e não se interessa por eles. No livro exclama repetidamente, em diversas situações: “mon cul” (me importa o caralho!) “Miller destaca o interesse pelo metrô, pelo subterrâneo por uma posição subjetiva que não quer saber dos semblantes. Uma posição cínica diante dos ideais da cultura ao se referir aos semblantes necessários para o laço e para que Eros, de certa forma, civilize o Real”, salientou Perpétua Medrado Gonçalves em sua fala de abertura. 
 
Miller a descreve como uma máquina de perfurar os semblantes, fazendo aparecer a balbúrdia do mundo de cada um, como lembrou Patrícia Badari em seu comentário. Salienta também que Zazie desconstrói semblantes, mas não os aniquila, e ao mantê-los, há a tentativa de preservação de uma ordem. Zazie também está nos subterrâneos de sua sexualidade e vai cutucando a sexualidade dos outros à sua volta. 
 
Maria Noemi de Araújo relembra Marie-Hélène Brousse ao se referir à arte como ruptura. “Queneau em Zazie dans le metro produz rupturas - na língua francesa – por exemplo, com a escrita inovadora de uma subtração do excesso de ‘letras inúteis’, fazendo uma transcrição fonética”. Noemi cita a homenagem que Malle faz à Nouvelle Vague, na medida em que o filme mostra a captação da vida da rua das cidades, pois antes disso, as cenas eram todas feitas em estúdios. Enfatiza Louis Malle como um “quebrador de imagens”, desmistificando a cidade, tornando-a ridícula, sem intrigas. Para ela, a cor da blusa de Zazie marca o filme – o laranja de sua blusa aparece em diversos outros detalhes de muitas situações e/ou personagens. “Tomarei o recurso da cor laranja, usado por Malle como um elemento que alinhava o discurso da imagem que perpassa a narrativa do filme, como um semblante a serviço da criação do laço. No coração da circulação da palavra, a própria cor, ao tomar o lugar de semblante, faz semblante de laço. (Semblants et Sinthome, Januz Kotara(NLS), Scilicet, 173). Então, em Zazie, a cor laranja funciona como a grande mediadora do simbólico com o imaginário em relação ao real”. 
 
Para finalizar, vale sugerir uma visita ao site da Cosac&Naify, na parte especialmente dedicada ao livro, sua tradução, sua confecção. Vale passear pelas vias do metrô ali assinaladas. Em uma das estações, entre outras delícias, podemos ler um capítulo inédito do livro de Queneau, não utilizado na edição final, onde Zazie finalmente faz seu passeio pelo metrô. 
 
 
 
Acesse:
www.cosacnaify.com.br/noticias/extra/zazie

  
Marizilda Paulino  
 
 
 
 
 
 
 
 




  









 

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